Como são feitos os exames de olho seco: Schirmer, fluoresceína e Verde de Lisamina explicados

Postado em: 05/10/2026

Ardor que piora à tarde, sensação de areia embaixo da pálpebra, visão que embaça na tela do computador e melhora quando você pisca várias vezes.

Se isso descreve o seu dia, a pergunta que chega ao meu consultório quase sempre é a mesma: isso é olho seco, e como se confirma?

Eu não respondo com um teste só. Respondo com uma investigação, porque olho seco tem mecanismos diferentes por trás, e cada exame olha para uma parte diferente do problema. O teste de Schirmer é um dos mais conhecidos, mas raramente ando com ele sozinho.

O que é o olho seco, e por que ele não tem uma causa única

Olho seco acontece quando o filme lacrimal, a camada fina que cobre a superfície do olho, perde qualidade ou quantidade.

Pode faltar água na lágrima, pode faltar a camada de gordura que evita a evaporação, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Por isso, antes de tratar, eu investigo qual mecanismo está por trás do seu caso.

A lágrima não é só água. Ela tem três camadas, e cada uma cumpre uma função: a lipídica, que evita a evaporação rápida; a aquosa, que hidrata e nutre a córnea; e a de mucina, que ajuda a lágrima a se espalhar de forma uniforme sobre o olho. Quando uma dessas camadas falha, a superfície ocular fica exposta e inflama.

Explico essa divisão na consulta porque, sem entender qual camada falhou, o tratamento vira tentativa e erro. Um colírio pensado para repor água não resolve um problema de evaporação, e o contrário também é verdade.

Por que peço mais de um exame para investigar olho seco

Um exame isolado não fecha o diagnóstico de olho seco. Cada teste responde a uma pergunta diferente: quanto de lágrima o olho produz, há quanto tempo essa lágrima se rompe sobre a superfície, e se já existe dano visível nela.

Combino os resultados para entender o mecanismo, não só para confirmar o sintoma.

Na minha conduta, a investigação costuma incluir a avaliação da borda da pálpebra e das glândulas de meibômio, responsáveis pela camada de gordura da lágrima, o tempo de ruptura do filme lacrimal, e os três exames que este texto detalha: o teste de Schirmer, a fluoresceína e o Verde de Lisamina.

Nem todo paciente precisa dos três no mesmo dia. A escolha depende do que a história clínica e o exame na lâmpada de fenda já indicam.

Como funciona o teste de Schirmer?

O teste de Schirmer mede o volume de lágrima que o olho produz em cinco minutos. Uma tira de papel filtro fica apoiada na pálpebra inferior, e eu meço, em milímetros, até onde a lágrima molhou o papel.

É um exame simples e rápido, e continua sendo um dos métodos mais usados para avaliar a produção lacrimal.

Explico ao paciente antes de começar: a tira fica posicionada por cinco minutos, com os olhos fechados ou semiabertos, dependendo da variação do teste.

Pode incomodar um pouco, porque qualquer coisa tocando a pálpebra estimula o reflexo de lacrimejamento.

Por isso existe a versão com anestésico tópico, chamada Schirmer II, que mede a produção basal da lágrima, sem esse estímulo reflexo.

Uso a variante que faz mais sentido para o que estou investigando em cada caso. O resultado numérico do teste de Schirmer entra na composição do diagnóstico junto com os outros achados, nunca isolado.

Um número baixo sozinho não fecha diagnóstico, do mesmo jeito que um número normal não descarta olho seco quando o mecanismo é evaporativo.

O que a fluoresceína mostra na superfície do olho

A fluoresceína é um corante que, sob luz azul, evidencia pontos onde a córnea perdeu células da camada mais superficial.

Uso esse exame para observar o tamanho e a extensão do dano causado pelo ressecamento, e também para medir quanto tempo a lágrima leva para se romper sobre o olho.

Aplico uma gota do corante e observo na lâmpada de fenda, com filtro de luz azul. Onde a superfície está íntegra, o corante não se fixa.

Onde há microlesões, ele marca pontos visíveis, um padrão que ajuda a diferenciar um olho seco leve de um quadro que já compromete a córnea de forma mais extensa.

O mesmo corante também serve para medir o tempo de ruptura do filme lacrimal, outro dado que entra na investigação e ajuda a entender se o problema é mais de evaporação do que de produção.

Para que serve o teste do Verde de Lisamina

O Verde de Lisamina é outro corante, usado para marcar células da conjuntiva e da córnea que já estão danificadas, mesmo sem terem se soltado por completo.

Ele complementa a fluoresceína porque evidencia um estágio diferente da lesão da superfície ocular, incluindo áreas da conjuntiva que a fluoresceína sozinha não mostra bem.

Uso o Verde de Lisamina principalmente quando quero avaliar a conjuntiva, não só a córnea.

É comum em casos de olho seco mais avançado, ou quando suspeito de uma causa que envolve inflamação mais ampla da superfície ocular, como acontece nas doenças autoimunes que afetam a lágrima, entre elas a síndrome de Sjögren.

O corante evidencia áreas que, sem ele, passariam despercebidas num exame só com fluoresceína.

Quando o olho seco exige avaliação, e não só um colírio de farmácia?

Procure avaliação se o desconforto é diário, se colírios lubrificantes comprados por conta própria não aliviam depois de duas ou três semanas, se a visão embaça e volta ao piscar com frequência, ou se você já tem uma doença autoimune diagnosticada. Esses sinais indicam que vale investigar a causa, não só tratar o sintoma.

Nesses casos, o exame direcionado substitui a tentativa de acertar um colírio por conta própria, e evita que um mecanismo evaporativo seja tratado como se fosse falta de produção, ou o contrário.

  • Ardor ou sensação de areia que não melhora com lágrima artificial comum;
  • Visão que oscila ao longo do dia, principalmente em ambiente com tela ou ar-condicionado;
  • Vermelhidão persistente, sem outra causa aparente;
  • Diagnóstico prévio de doença autoimune, como artrite reumatoide, lúpus ou síndrome de Sjögren;
  • Uso prolongado de lentes de contato associado a desconforto crescente.

O que esperar depois do diagnóstico de olho seco

O objetivo da investigação é identificar o mecanismo por trás do ressecamento, porque a conduta muda conforme a causa: falta de produção, evaporação excessiva ou inflamação da superfície ocular.

O que se pode esperar do tratamento depende de critérios clínicos que só a avaliação individual define, e nem todo caso responde da mesma forma.

Não prometo resolução definitiva, porque olho seco costuma ser uma condição de controle contínuo, não de cura única.

Uma vez identificado o mecanismo, oriento um plano de cuidado, que pode incluir lubrificantes específicos, cuidado com a borda da pálpebra, ajuste de hábitos diante de telas e, quando indicado, encaminhamento para investigar uma causa sistêmica associada.

Cada plano é construído a partir do que os exames mostraram no seu caso, não de uma fórmula única para todo paciente.

Perguntas frequentes sobre exames de olho seco

1. O teste de Schirmer dói?

Não costuma doer, mas pode incomodar, porque qualquer contato com a pálpebra estimula o reflexo de lacrimejamento. Na versão com anestésico tópico, esse desconforto diminui bastante.

2. Preciso fazer os três exames na mesma consulta?

Não necessariamente. A escolha entre teste de Schirmer, fluoresceína e Verde de Lisamina depende do que a história e o exame inicial já sugerem. Em alguns casos, um ou dois exames já dão a informação necessária para direcionar a conduta.

3. Olho seco tem cura?

Na maior parte dos casos, é uma condição de controle contínuo, não de cura definitiva. O tratamento busca reduzir o desconforto e proteger a superfície ocular, e o resultado depende de critérios clínicos que a avaliação individual determina.

4. Uso de tela piora o olho seco?

O tempo prolongado de tela reduz a frequência do piscar, o que aumenta a evaporação da lágrima. Não é a causa única, mas costuma agravar o quadro em quem já tem a condição.

5. Quando o olho seco pode estar ligado a uma doença autoimune?

Quando vem acompanhado de outros sintomas, como boca seca, dores articulares ou diagnóstico prévio de doença reumatológica. Nesses casos, a investigação oftalmológica caminha junto com o acompanhamento do reumatologista.

Investigação de olho seco com a Dra. Medéia Coradini

Eu conduzo a investigação de olho seco combinando a história clínica com os exames descritos neste texto, sempre a partir do que cada caso pede. Se o desconforto já dura semanas e a lágrima artificial não resolve, vale marcar uma avaliação para entender a causa.

Este conteúdo é informativo e não substitui uma consulta oftalmológica.

Dra. Medéia Coradini

Oftalmologista especialista em Neuro-oftalmologia,
Cirurgias de Catarata com lentes de tecnologia avançada e Cirurgiã de Retina.CRM: 161.100 | RQE: 100.683