Doenças autoimunes e visão: lúpus, artrite reumatoide e síndrome de Sjögren, o que os olhos revelam
Postado em: 26/10/2026
Você já tem um diagnóstico reumatológico e chega ao consultório encaminhado pelo seu médico, ou então percebe um olho seco que não passa e ainda não sabe que ele pode ter relação com uma doença autoimune ainda não investigada. Os dois caminhos são comuns na minha rotina.
Explico neste texto como o lúpus, a artrite reumatoide e a síndrome de Sjögren podem se manifestar nos olhos, e por que, em muitos casos, oftalmologia e reumatologia caminham juntas.
Por que doenças autoimunes afetam os olhos
Doenças autoimunes fazem o sistema de defesa do corpo atacar por engano tecidos saudáveis, e o olho tem vários tecidos sensíveis a esse processo: a superfície ocular, as glândulas lacrimais, a esclera e, com menor frequência, a retina e o nervo óptico.
Por isso, uma doença que parece só reumatológica pode ter primeira manifestação, ou complicação, nos olhos.
Já investiguei, em atendimento e em apresentação de caso em congresso, situações em que o sintoma ocular chegou antes do diagnóstico reumatológico fechado, e outras em que ele apareceu anos depois de uma doença autoimune já estabelecida e tratada.
As duas situações pedem a mesma atenção: entender se o que aparece no olho é isolado, ou se é parte de um processo maior que precisa de acompanhamento conjunto.
O que a síndrome de Sjögren faz com a lágrima
A síndrome de Sjögren ataca as glândulas que produzem lágrima e saliva, e o resultado típico é um olho seco mais intenso e persistente do que o quadro comum.
Quando o olho seco vem acompanhado de boca seca e outros sintomas sistêmicos, investigo essa possibilidade em conjunto com o reumatologista.
Nesses casos, a investigação oftalmológica costuma ir além do exame padrão de olho seco, porque o objetivo não é só tratar o sintoma, é entender se ele é a primeira pista de uma condição que ainda não tinha diagnóstico fechado.
Uso, entre outros, o teste de Schirmer e corantes como fluoresceína e Verde de Lisamina para medir a extensão do comprometimento da superfície ocular, e esses achados entram no relatório que compartilho com o reumatologista quando a investigação sistêmica está em curso.
É um trabalho de mão dupla: o que vejo no olho ajuda a fechar o quadro clínico geral, e o que o reumatologista identifica orienta como acompanho o olho dali para frente.
Artrite reumatoide e os olhos: o que costumo investigar
Na artrite reumatoide, olho seco é a manifestação ocular mais comum, mas não a única. Inflamação da esclera, a parte branca do olho, também pode ocorrer, e exige atenção porque, sem tratamento, pode comprometer estruturas mais profundas.
Investigo os dois tipos de manifestação, sem tratar o olho seco isoladamente quando o quadro sugere causa reumatológica.
A escleroquerite associada à artrite reumatoide costuma se apresentar com dor mais intensa do que a vermelhidão comum, muitas vezes descrita pelo paciente como uma dor que incomoda até com o olho fechado.
É um sinal que diferencio, na consulta, de uma conjuntivite simples, porque a conduta e a urgência são diferentes.
Por que acompanho os olhos de quem usa hidroxicloroquina
A hidroxicloroquina é um medicamento comum no tratamento de lúpus e artrite reumatoide, e em uso prolongado pode, em uma parcela dos casos, afetar a retina.
Por isso, o acompanhamento oftalmológico regular de quem usa esse medicamento não é opcional: é parte do cuidado com a doença de base, e trabalho isso junto com o médico que prescreveu o tratamento.
Esse acompanhamento costuma incluir exame de campo visual e tomografia de coerência óptica da retina, com intervalo definido conforme o tempo de uso do medicamento e a dose acumulada, seguindo as diretrizes descritas por sociedades oftalmológicas internacionais.
Já apresentei esse tema em congresso de retina e vítreo, justamente porque é uma área que exige atenção contínua, não só na consulta em que o sintoma aparece.
Lúpus e a visão: o que pode acontecer
O lúpus pode afetar os olhos de formas diferentes: olho seco, inflamação da esclera e, com menor frequência, alterações de retina ou do nervo óptico ligadas à atividade da doença.
Cada manifestação exige uma investigação própria, e o acompanhamento oftalmológico ajuda a identificar sinais que, às vezes, aparecem antes de outros sintomas sistêmicos.
Quando há suspeita de envolvimento de retina ou nervo óptico ligado ao lúpus, complemento o exame de fundo de olho com retinografia e, dependendo do achado, tomografia de coerência óptica.
Essas alterações são menos frequentes do que o olho seco, mas peço atenção redobrada quando o paciente já tem histórico de atividade sistêmica da doença, porque o olho pode sinalizar uma fase de piora antes que ela fique evidente em outros exames.
Quando a queixa ocular pede investigação reumatológica em conjunto?
Alguns sinais indicam que vale investigar em conjunto com o reumatologista, e não tratar o olho de forma isolada.
- Olho seco intenso, associado a boca seca;
- Dor ou vermelhidão na esclera, sem melhora com lubrificante;
- Diagnóstico já confirmado de doença autoimune, mesmo sem sintoma ocular ainda;
- Uso de hidroxicloroquina ou outro medicamento com necessidade de monitoramento ocular;
- Alteração visual súbita em quem já tem doença reumatológica ativa.
O que esperar do acompanhamento conjunto
O objetivo do acompanhamento é identificar cedo qualquer manifestação ocular ligada à doença autoimune, e ajustar a conduta junto com o reumatologista.
Não é possível prometer que os olhos nunca serão afetados: o que se acompanha é a evolução, com exames programados conforme o risco de cada caso.
Perguntas frequentes sobre doenças autoimunes e visão
1. Toda pessoa com artrite reumatoide vai ter olho seco?
Não necessariamente, mas é a manifestação ocular mais frequente da doença. A investigação ajuda a identificar cedo, mesmo antes de o sintoma incomodar bastante.
2. Preciso ir ao oftalmologista mesmo sem sintoma nos olhos?
Se você usa hidroxicloroquina ou tem doença autoimune diagnosticada, sim. O acompanhamento regular é parte do cuidado, porque algumas alterações começam sem sintoma perceptível.
3. Olho seco por doença autoimune se trata igual ao olho seco comum?
Não da mesma forma. O tratamento considera a causa de base, e costuma exigir uma investigação mais completa da superfície ocular, incluindo exames como o teste de Schirmer e corantes específicos.
4. A hidroxicloroquina sempre afeta a retina?
Não. A alteração retiniana ocorre em uma parcela dos pacientes, geralmente ligada a tempo de uso e dose acumulada. É por isso que o acompanhamento é programado, não feito só quando aparece sintoma.
5. Quem encaminha para o oftalmologista nesses casos, o reumatologista ou eu mesmo posso procurar?
Os dois caminhos funcionam. Muitos pacientes chegam por encaminhamento do reumatologista, mas também atendo quem percebe sintoma ocular persistente e quer investigar antes mesmo de ter diagnóstico reumatológico fechado.
Investigação ocular de doenças autoimunes com a Dra. Medéia Coradini
Acompanho pacientes com lúpus, artrite reumatoide e síndrome de Sjögren em conjunto com o reumatologista, investigando desde o olho seco até o monitoramento de medicamentos como a hidroxicloroquina.
Se você tem diagnóstico autoimune, ou uma queixa ocular persistente sem explicação, vale marcar uma avaliação.
Este conteúdo é informativo e não substitui uma consulta oftalmológica.
Dra. Medéia Coradini
Oftalmologista especialista em Neuro-oftalmologia,
Cirurgias de Catarata com lentes de tecnologia avançada e Cirurgiã de Retina.CRM: 161.100 | RQE: 100.683